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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Caminho

Caminhos

Descia a rua comprida, em cima da calçada estreita, encolhendo-se quando os pneus dos carros levantavam a chuva da estrada esburacada. O talho recebia carne fresca, carcaças penduradas na carrinha frigorífica; do restaurante saiam empregadas de limpeza, rindo alto enquanto transportavam os sacos de lixo para o exterior; na barbearia, o barbeiro acendia um cigarro sem pressa, do lado de fora do estabelecimento. O habitual.
Na bifurcação, Bruno seguia pela direita, mirando o eléctrico cheio de turistas que se deslocava no sentido inverso. Passou por debaixo da amoreira junto à casa abandonada e sentiu o chão peganhento, devido aos frutos esmagados que nunca foram recolhidos em tempo útil.
A rua começava a subir. Bruno desviou-se para deixar passar o dono da mercearia: atravessava a estrada rapidamente para evitar um veículo apressado. O vernáculo encheu a ruela cinzenta, diminuindo passado pouco tempo.
A chuva ameaçava voltar. A ameaça concretizou-se quando os primeiros pingos foram bater nos telhados mais altos. Bruno reparou no homem que vinha na sua direção - aparentava ser alguns anos mais velho que ele próprio. Impecavelmente vestido com um fato azul-escuro, trazia um semblante em tudo oposto à cor do guarda-chuva que transportava. As cores do arco-íris rodeavam o homem cabisbaixo, como uma aurela colorida, protegendo-o da intempérie. O seu caminhar era pesado, qual condenado a percorrer o corredor da morte. Passou sem pestanejar.
Bruno cobriu-se com a sacola bege mas não chegava para o abrigar convenientemente da chuva, por isso refugiou-se debaixo do toldo do posto dos correios. Não era o único a fazê-lo: no local estava uma mulher que suspirava por ver o seu jogging matinal sabotado e um rapazinho nos seus dez anos, carregando uma mochila que aparentava ser muito pesada. Bruno tirou um cigarro para queimar tempo.
Quando a chuva parou, Bruno continuou caminho, mas foi logo interrompido por um puxão no braço: o rapazinho olhava-o muito sério e parecia estar a fazer um reconhecimento facial de Bruno. Ao mesmo tempo, falava ao telemóvel.
  • Sim, é como dizes, mãe. Espera um bocadinho.
Falou para Bruno peremptoriamente.
  • O senhor desculpe, a minha mãe pediu que me levasse ao número dois da Rua Direita.
  • Posso falar com a tua mãe?
  • Sim.
Bruno recebeu o telemóvel e perguntou o nome à mãe do míudo. Esta não lhe disse o nome, mas Bruno reconheceu imediatamente a voz. Despediu-se e devolveu o aparelho.
  • Vamos, a tua mãe está à espera.
Seguiram caminho, com Bruno a dar uma ajuda a carregar a mochila (e confirmava-se, era mesmo pesada). Encontrar a Rua Direita não era difícil: era a rua principal, junto do jardim onde Bruno parava todos os dias para desenhar nos seus moleskines. “Todas as terras têm uma Rua Direita”, pensou Bruno e o rapazinho parecia ter feito o mesmo, porque fez um gesto de concordância com a cabeça.
A chuva tinha parado, mas a água continuava a escorrer pelas ruas, provocando o caos no trânsito. Um gato miava angustiantemente numa árvore e um rafeiro ladrava na varanda de uma janela, parecendo alegre por aborrecer o outro animal. Alguns estabelecimentos tinham fechado a porta.
Chegaram ao número dois, fugindo das poças que preenchiam a calçada lamacenta. Da janela do primeiro andar surgiu uma mulher preocupada, mas ligeiramente aliviada por ver o seu filho são e salvo. Bruno reconhecia o rosto como tinha reconhecido a voz, mas não sabia dizer o nome da mulher. Sabia apenas que era alguém muito próximo, talvez um familiar. O rapaz despediu-se com um sorriso e entrou pela porta.  
  • Obrigada, Bruno - disse a mulher, seriamente - Não vás pela sombra.
A mulher desapareceu e a porta já estava fechada.
Pode parecer estranho Bruno não se lembrar do nome da mulher, mas ele era por natureza uma pessoa bastante distraída. No seu currículo, a palavra “distraído” era substituída por “contemplativo”.  Era uma característica transportada para os flyers que resumiam a sua vida de artista, quando os seus quadros eram expostos em galerias locais.
Bruno estava a meio caminho do seu destino. O caminho era novamente a subir. O sol brilhava agora com tal força que os rios de chuva pareciam nunca ter existido, tal era a velocidade da evaporação. “Evaporação, condensação e precipitação”, pensou Bruno. A chuva voltaria a cair um destes dias.
Passou junto do local de desenho e observou um homem de fato azul-escuro caminhando sorridente, segurando um guarda-chuva repleto de várias cores. Não fosse pelo sorriso e por todo um ar mais saudável e Bruno diria que tinha visto o mesmo homem uns minutos atrás. Talvez fossem gémeos.
A certa altura, Bruno abrigou-se à sombra. Infelizmente, não seguir o conselho da mãe do rapazinho tinha consequências: Bruno perdeu-se num estranho beco apertado, escuro, emanando odores inaláveis, uma mistura de urina e restos de comida com alguns dias. As janelas estavam quase todas fechadas ou a fechar, uma resposta que Bruno não sabia se interpretava como medo ou simples desprezo pela sua pessoa, apelando por ajuda em vão. Parou uns momentos e recorreu ao seu exímio raciocínio espacial para reconstruir o local mentalmente e descobrir a saída. Mas o seu cérebro traía-o: todas as tentativas que fez conduziram-no ao mesmo local, uma parede grafitada com duas portas de madeira. Eram idênticas, sem nenhum sinal que as diferenciasse. Pôs-se à escuta. Do lado esquerdo ouvia-se o som do vento, mas a soprar muito levemente, como uma brisa de verão a agitar a vela de um pequeno barco; do lado direito, era também o vento que soprava, mas com uma intensidade voraz.
Abriu a porta da esquerda. Via um caminho maravilhoso, banhado de luz e de árvores primaveris. O fim não era visível, mas Bruno achava que se seguisse sempre a direito até à linha do horizonte havia de chegar ao seu destino. Na porta da direita, o caminho era sinuoso, as árvores estavam desordenadas e sem folhas e no céu escuro moviam-se nuvens ciclónicas. Entre as duas hipóteses, a escolhia não era muito complicada.
O caminho da esquerda era paradisíaco. A brisa que ouvira momentos antes acariciava-lhe a face, como uma mão feminina perfumada e a paisagem ficava cada vez mais bonita à medida que os seus pés deslizavam sem esforço pelo piso esmeradamente cuidado.
Bruno viu que o sol baixava, parecendo aproximar-se e aumentando o tamanho das sombras das árvores. “Não vás pela sombra”, ecoaram as palavras no seu pensamento. Não ia cometer o mesmo erro duas vezes.
Saiu do caminho, mas tudo à sua volta era agora um infindável deserto escaldante com areia flamejante que o impedia de avançar. Percebeu que não conseguia voltar para trás e que tinha de seguir pelo caminho original, cada vez mais pintado de negro pelas sombras compridas.
Esgotado, deixara para trás a sacola, deixando-se cair nos joelhos e tentando recuperar o fôlego. “Bem que podia chover agora”, queixou-se Bruno, lembrando a carga de água que caíra anteriormente. Quando finalmente chegou ao fim, sentia-se como se os anos tivessem voado: a pele ligeiramente mais imperfeita, as rugas mais vincadas, a roupagem mais formal. Mesmo para um artista como ele, que sempre preferira as sapatilhas a qualquer outro calçado, transportava nos pés um par de sapatos castanhos com uma sola forte. Mas estava no seu destino, o seu atelier, onde o esperavam os seus colegas, Rodrigo e Cátia. Também eles pareciam mais velhos. Rodrigo era o que estava mais diferente, porque tinha finalmente uma barba de homem e não a tentativa da mesma (do último...dia?). Cátia, que habitualmente mudava o visual não parecia ter sofrido uma mudança tão radical.
Bruno fez um intervalo a meio da tarde para fumar e deu de caras com o rapaz que tinha visto de manhã.
  • Olá, a minha mãe quer falar consigo outra vez.
  • “ Não te esqueças de sorrir”.
A mulher desligou a chamada e Bruno devolveu o telemóvel. O rapaz seguiu com a sua pesada mochila às costas.
Na hora de saída, Cátia esperou o namorado que vinha sempre buscá-la de moto. Bruno acendia outro cigarro enquanto Rodrigo baixava a grade da entrada.
  • Até manhã - sorriu Rodrigo ao despedir-se. Bruno ficou aparado por uns momentos, até se lembrar de sorrir de volta e cumprimentar o colega.
No caminho de regresso, Bruno viu os dois homens iguais caminhar na sua direcção, um sorrindo e o outro não. Bruno decidiu sorrir. O homem que sorria continuou o seu caminho. O outro igual, de ar pesado tinha desaparecido.
Quando passou novamente pela rua Direita, viu também a criança de mochila às costas mais alegre que nunca. A mãe acenava para Bruno da janela. Bruno deu por si a descer a rua, com o facto azul-escuro e o mesmo chapéu de arco-íris que bem conhecia. E viu o seu anterior “eu”, vestido como estava pela manhã, com a mesma sacola bege e o semblante mais jovem.
Bruno continuou, abrindo o chapéu para a chuva que voltava a cair dos céus cinzentos. Sabia que, no fim do dia e apesar dos erros, dera ouvidos àquela mulher. Podia logo ter evitado a sombra, podia ter optado pelo caminho mais duro, porventura mais verdadeiro. Mas fora-lhe dado mais uma oportunidade e dessa vez escolhera acertadamente. O seu “eu” de criança e o seu “eu” de jovem adulto iriam com certeza passar pelo mesmo.  “Que estranho tempo”, pensou Bruno, “mas que bem que sabe”.
Seguiram os Brunos, cada um pelos seus caminhos, que partiam todos do mesmo lugar mas que acabavam onde cada um quisesse. Pelo menos um deles estava no bom caminho.


O homem que às vezes voava

O homem que às vezes voava

 "As coisas parecem mais calmas quando vistas cá de cima".
No quinquagésimo terceiro andar de um edifício cinzento cor-de-cidade, funcionava um antigo escritório de contabilidade. O Sr. Jacinto olhava de quando em quando pela ampla janela à direita da sua mesa de trabalho. Sabia que lá em baixo a confusão reinava, fosse pelo trânsito caótico, envolto na ladainha das buzinas e insultos berrados pelos automobilistas, ou pelos manifestantes que se juntavam vindos de toda a parte, elevando não só palavras de revolta como também faixas e cartazes feitos artesanalmente. O Sr. Jacinto sabia tudo isto porque na sua hora de almoço tirava uns minutos para dar uma volta ao quarteirão. Se fosse pela experiência que tinha junto à janela, não se aperceberia de uma agitação tão grande: a altura a que se encontrava e a vista preguiçosa apresentavam-lhe um plano difuso, com pontos praticamente homogéneos a moverem-se num jogo repetitivo. Por tudo isto, o Sr. Jacinto voltava a sussurrar para os seus botões, alinhados na camisa enrugada: "as coisas parecem mais calmas quando vistas cá de cima". Uma questão de perspectiva.
                Dos seus sessenta anos de vida, o Sr. Jacinto - Jacinto José Fernandes Vilela, de nome completo - tinha passado os últimos trinta e cinco naquele mesmo emprego e vinte deles naquelas instalações. Foi tempo suficiente para perder alguns cabelos, ganhar uma barriguinha, ver os filhos crescer, as despesas aumentarem, as mazelas surgirem e claro, o medo das alturas diminuir, condição necessária para quem se sentava cinco dias por semana num ambiente algo vertiginoso. O Sr. Jacinto dizia que não eram os medos que desapareciam, “tenho é menos paciência para perder tempo com eles”.
Este era daqueles dias em que o seu pensamento ultrapassava o quinquagésimo terceiro andar e pairava no vento da monotonia, esperando uma corrente mais forte para se perder mais um pouco e aguardando uma brisa suave ou uma tempestade repentina que o trouxesse de volta ao seu lugar, junto da mesa de trabalho. Pensava nesses mesmos sessenta anos, mais de meio século, ou meia vida se o tempo assim o permitisse; pensava nos anos que ainda lhe faltavam trabalhar, dos clientes que ainda tinha de aturar, do patrão que haveria de reclamar por mais alguma coisa, das contas que fazia fora de casa - sobretudo despesas, logo por azar. Pensava também nos sonhos guardados desde jovem, das férias que nunca tinha descansado, de voar naquele aparelhómetro chamado avião e ir para um país diferente de onde estava - que não era mau - mas saberia bem respirar um ar diferente. Imaginava aquela viagem de cruzeiro pelo Mediterrâneo, ele e a esposa no meio dos estrangeiros sorridentes, a descansar numa cadeira junto à piscina, a fazer compras no centro comercial, a passear em grupo pelas ruas das mais variadas cidades. Pensava também no quão depressa tudo se passava na vida e não havia sinais que parasse por uns tempos. Porque o tempo tem virtudes que ao mesmo tempo são defeitos: nunca se atrasa, nunca hesita e nunca se cansa.
Ora, todo este cenário estava carregado de um tom desanimador e era assim que o Sr. Jacinto se sentia quase sempre, excepto nas alturas em que voava. Não sabia como o fazia, mas fazia-o desde pequeno. A mãe dizia que saía ao avô paterno, antigo piloto, mas ele achava essa ligação um pouco rebuscada. Fosse como fosse, Jacinto Vilela voava, com duas condicionantes: a primeira era que o “voo” vinha por si mesmo, surgia quando lhe dava na telha, logo não servia para obter um emprego rotineiro (que teria de ser inventado, porque mais ninguém por ali voava, só uma ou outra pessoa no estrangeiro, mas pouco se falava do que se fazia ao certo); a segunda estava relacionada com o problema das vertigens, que por várias vezes tinham causado os episódios mais constrangedores que alguém que voa pode vivenciar – como daquela vez que o Sr. Jacinto voou descontroladamente por cima de uma das estradas principais da cidade e distraído embateu num semáforo, ou aquele episódio em que tentou salvar um gato de uma árvore e acabou por ser socorrido pelos bombeiros, por ter medo de descer. Mas como já foi referido, esse medo tinha vindo a ser mitigado com o avançar da idade e quando no minuto seguinte a sensação de voar começou a encher o corpo do contabilista, este aproveitou a deixa, abriu a janela e disse aos seus colegas de secção: “Vou dar uma voltinha, até já”.
O som destas palavras era o suficiente para alertar os seus companheiros do escritório. O que fumava muito (e que tremia quando não o fazia) pedia que lhe trouxesse mais um maço de tabaco da rua; a que estava sempre ao telefone clamava a última edição de uma revista cor-de-rosa e o mais nervoso pedia que se calassem, voltando atrás para conferir uma factura manhosa.
Antes de se empoleirar na janela, o contabilista despiu a gravata azulada, uma vez que esta lhe causava imensa impressão durante as viagens. Uma rabanada de vento cirandava a janela e o Sr. Jacinto lançou-se para o ar, pairando o mais graciosamente que lhe era possível nessa estrada invisível, ostentando o hábito de esticar os braços à Super-Homem. Quando a ventania amainou, decidiu baixar a altura, situando-se ao nível do vigésimo andar do edifício. Seguiu numa linha recta até encontrar o grande parque urbano, altura em que se virou de barriga para cima e flutuou como se estivesse à tona da água.
O Sr. Jacinto nunca se tinha afastado muito do sítio em que calhava começar o voo, por receio de que o efeito do mesmo desaparece e fosse obrigado a percorrer uma grande viagem de volta. O fim de cada sessão de voo era gradual, por isso o contabilista ficava tranquilo enquanto perdia altitude. Hoje sentia-se especialmente aéreo e contava voar por mais tempo do que os habituais quinze minutos. Para quem nunca voou por si próprio, o quanto não dariam por voar quinze minutos! Para o Sr. Jacinto, sabia a pouco. (Uma pessoa nunca está satisfeita com aquilo que tem). Mas hoje não, hoje haveria de voar por muito tempo.
O parque urbano lembrava ao Sr. Jacinto aquele espaço verde gigante que vira muitas vezes em filmes e revistas, cujo nome não se lembrava, mas ficava lá para a América. Comparativamente, este tinha uma área muito mais modesta, se bem que a beleza e a verdura também habitavam no pequeno pulmão citadino.
O pior inimigo do Sr. Jacinto deixara de ser as alturas e passara a ser os pombos. Surgiam agressivamente, como os aceleras que competem nas estradas, voando poucos metros à sua frente e obrigando-o a desviar-se para puder avançar. Todos os outros seres voadores comportavam-se civilizadamente: pardais, andorinhas, melros: até os patos e os gansos, seres de maior porte, mantinham-se ordenados e abriam espaço para o contabilista passar calmamente. Mas os pombos não. Tinham uma tendência natural para o caos. O Sr. Jacinto experimentou outra rota, longe dos “ratos com asas”. Horríveis. (Não se pode deixar de referir que o contabilista tinha imenso respeito pelos heróis de guerra, portanto abria uma excepção para os pombos-correio que receberam as suas condecorações pelos serviços prestados na Segunda Guerra Mundial).
Aquele voo estava a ser tão reconfortante que o Sr. Jacinto não ouviu o telemóvel tocar, nem os berros do patrão do outro lado da linha, a tentar lembrar-lhe que tinha ultrapassado o tempo normal de voo e que deveria regressar imediatamente à sua secretária. A brisa quente que agora soprava aumentava o sentimento de bem-estar e tornou-se mais fácil abstrair-se do que quer que fosse.
A viagem estava a ser excepcional. Provavelmente, a melhor que fizera até àquele dia.
Sobrevoou os limites da cidade e decidiu ir mais além. Passou pela zona industrial e depois pelos grandes armazéns; subiu mais uns metros para ter uma visão mais abrangente do cenário, cada vez menos citadino; finalmente viu a linha da costa, banhada pelo oceano e aproximou-se da água para ver o seu reflexo, que se manteve quieto somente enquanto a vaga de ondas não passava. Quando voava mais à direita, via a sua sombra esguia a sobrevoar o imenso areal.
E então reflectia.
O seu voo era uma espécie de talento, como há os que jogam à bola, ou os que percebem muito de matemática, ou os que tratam dos doentes. Se ele tivesse acreditado mais nessa habilidade, se se tivesse esforçado quando era mais novo, se tivesse discutido com outros o que fazer enquanto estava no ar, talvez o presente fosse como aquele mar, vasto e misterioso, transparente e infinita fonte de inspiração. Mas na Terra dos Ses, os sonhos metamorfoseavam-se lentamente em paisagens de melancolia. E veio mais um "se": e se daqui a um tempo, um mês, um ano, voltasse a puder voar deste modo privilegiado e observasse outra vez a cidade, o parque, a zona industrial, os armazéns e finalmente a praia e não houvesse memórias novas para recordar, apenas o envelhecer?
Uma pessoa por vezes decide, mas não faz e se não faz é porque não decidiu como deve ser. O Sr. Jacinto decidiu pela enésima vez e talvez por o voo ser maior que os outros ou porque havia maior determinação - fosse qual fosse a razão - aquela decisão converteu-se numa acção, verdadeira energia cinética: o Sr. Jacinto era a massa, movendo-se rapidamente (e literalmente) pelos ares e tudo isto dividia-se ao meio, que era assim que a coisa funcionava, segundo os físicos experientes.
Regressou sorrindo muito, entrando triunfantemente pela ampla janela e os seus colegas, ao verem expressão tão rara, olvidaram os pedidos feitos; o seu patrão estava furioso, face avermelhada e dentes comprimidos, segurando uma explosão iminente. E o Sr. Jacinto ria e dançava e pegava no seu patrão e agora dançavam os dois e a vermelhidão ia.
"Quem quer ser o primeiro a voar?"
E esta pequena frase resumia a mudança, a passagem de decisão a acção, um gesto simples para o contabilista que percebera finalmente que por mais pequena que fosse a parte de si que desse aos outros, ampliaria os seus efeitos pela empatia e cresceria, ao estar depositada nas mãos dos receptores. Passava a sua alegria para outros, contagiava como um vírus benigno - se tal é clinicamente aceitável: este, por sua vez, desenvolvia-se no outro, pois o sonho de alguns faz sonhar os restantes.
Nas viagens que fazia, levava uma pessoa de cada vez, espantando-se a si mesmo por conseguir levar indivíduos mais pesados sem se cansar, uns pedindo para se sentarem sobre as costas, outros presos apenas por uma corda, levando uma prancha que usavam para surfar pelas nuvens, como num desporto radical que ainda não tinha sido inventado.
O Sr. Jacinto voava agora sempre que queria e podia e a sua família acompanhava-o para todo o lado, de carro e as vezes até de avioneta. Os cabelos continuavam a desaparecer, a barriguinha estava mais controlada pelos voos regulares, os filhos cresciam mais um pouco, as despesas também, as mazelas antigas iam mas apareciam as novas e as vertigens já quase se tinham extinto. Embora tudo isto acontecesse, o Sr. Jacinto lembrava a diferença de atitude que agora tinha e compartilhava-a com os outros, de cada vez que voava: "as coisas parecem mais calmas quando vistas cá de cima".
Uma questão de perspectiva.